
Hoje enfim resolvi escrever sobre a minha primeira experiência/visita em um CIE (Centro de Internamento de Extranjeir@s). Explicando: CIE é o lugar onde as pessoas que estão "sem papeles" - ou como diria Mano Chao, são de "clandestin@s" - ficam retidas para serem deportadas ou liberadas (depois de passar 60 dias, tempo máximo de permanência).
Esse lugar ñ está regido por nenhum tipo de normativa. A lei interna é colocada pela Polícia Nacional e tudo depende de dia, cara, simpatia, humor, se o time ganhou no futebol ou não, etc. Ou seja, não há nada que ampare essas pessoas. Na verdade elas ñ cometeram crime nenhum e sim uma falta administrativa. E então, nesse caso a pessoa ñ poderia ser privada de liberdade, o único que legalmente deveria acontecer é uma sanção, uma multa.
Pois bem, depois de uma breve explicação aí vai .... Entrei numa Plataforma que luta pelo fechamento do CIE de Valencia. Difícil ter entrado pois estou priorizando terminar a tese e daí que momentaneamente não me sinto forte para entrar em tantas lutas pois tô querendo voltar pro Brasil com o meu objetivo aqui cumprido. Mas como não consigo ficar quieta decidimos (eu e Telma) entrar, principalmente depois que soubemos que tem brasileiras detidas.
Fomos em uma reunião e conhecemos um pouco do grupo. A plataforma faz visitas as pessoas que não tem família aqui e estão em alto grau de vulnerabilidade (como se desse pra medir isso, né?!). Alguém informa nome, cela e o país de procedência e daí fazemos a visita.
Fui no domingo de 12h com uma espanhola do grupo pois primeiro conhecemos os processos para despois atuar sozinha. Cheguei lá e tinha uma fila com umas 20 pessoas, 99% extranjeira. Ficamos puxando conversa, dizendo que estavamos em uma plataforma e precisamos reivindicar junt@s, etc.
Fomos as 14º da fila, visitamos um homem de América Central. O primeiro impacto foi de me ver nos filmes americanos pois, apesar de ser avisada antes, fiquei chocada (além de que me resisto a sentir e dizer isso, mas a verdade é que choca mesmo!!!) com o lugar. Era uma sala pequena com um vidro grosso, não tinha cadeiras, mesas, nenhuma possibilidade de toque humano, abraço, sentr o cheiro d@ outr@, etc.
Imagina um filho com uma mãe detida, imagina alguém que vc ama pres@ pelo simples fato de ser de outro país, por não ter papeles . Imagina tu sair pro trabalho e ser abordad@ pela polícia a paizana pelo simples fato de ter traços diferentes, por andar assim ou assado, etc. Nem consigo pensar se isso acontecesse com alguém de minha família!!
São muitos os sentimentos de estar ali dentro!!! O homem que vistamos tinha mais ou menos uns 50 anos, tinha pedido asilo político a Espanha e ademais estava ameaçado de morte em seu país. Não tinha ninguém aqui, ninguém que estivesse buscando seu paradeiro, ninguém para ir lhe visitar, não sabiam se ele ia ser deportado, se ia ser solto, etc.
Quando ele entrou na sala ele ficou meio tonto, procurando quem tinha ido lhe visitar. Gritavamos seu nome e ele veio ao nosso encontro. Falavamos através de um pequeno circulo bem protegido, onde as vozes de 13 pessoas se misturavam e ficava dificil de entender @ outr@. Dissemos quem éramos e conversamos um pouco. Falou de sua situação, que também havia assinado uma denúncia de maus tratos e que estava esperando para saber se ia ser deportado ou não. Sua angústia era que alguém lhe acordasse na madrugada e dissese que tinha que ir embora, sua angústia é não saber de nada, não saber onde estaria amanhã, etc. De fato uma situação angustiante!
Sai de lá e conversamos rapidamente e fui pra casa. Antes de terminar o muro branco senti uma profunda vontade de chorar, não sei de onde vinha, mas quando olhava as paredes brancas em minha mente só apareceia a voz do senhor, as crianças na fila, as lágrimas retidas d@s visitantes e internos. Foi duro e será duro pois não vou estacionar, siguirei visitando-lo junto com a companheira da plataforma.
A verdade é que me aproximar desse fato amedrontou pelo simples fato de me colocar frente a uma injustiça que sabia que existia (através dos filmes) mas que até então não conhecia, não podia tocar, não estava a minhas vistas, não podia sentir (.....) Mas tal como Matrix, já tomei a pílula e agora não tem volta, já posso tocar o vidro da injustiça, já tenho em minha memória os rostos desesperados das famílias, já sinto o cheiro do preconceito, do desrespeito e da hipocresia humana.
Precisava, mesmo que fosse breve, dar a conhecer essa situação dos que se dizem democráticos, dos que se dizem desenvolvidos e tantas coisas mais que só descobrimos quando vivemos. Na verdade até pode ser que o mundo tenha avançado muito, mas enquanto houver desigualdades não acredito que tenhamos avançado como seres humano, como humanidade.
PELO FIM CIES JÁ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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